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segunda-feira, 30 de maio de 2005

Justiça

Sonho.
Sonho que de sincero pode realizar-se.
Como?
Rabiscos.
Rabiscos que unidos formam uma língua,
que de contrastes toma forma
e de pedaços se incorpora inteira.

Mas de divulgada difundiu-se
e então os valores se inverteram,
daí o sonho tornou-se pesadelo.

Resgates são tentados diariamente,
mas as cordas usadas, de tão sabotadas, entregam-se
e eis que volta a tornar-se sonho.

Que dessa vez é sempre interrompido
no momento em que é aceita: realidade.
Mas um sonho substitui outro...

Daí surgem os artistas,
que com suas artes expõem
o que a justiça ameaçada não se preocupa em entender.

Em especial se fez na escrita
onde suas histórias espelham
suas falhas e conceitos.

Desde traços sem sentido
até planos mirabolantes.
Assim se faz poesia.

No poema é onde se alcança justiça plena,
é onde se cria novas maneiras,
mesmo que de sonho nada ultrapasse.

sexta-feira, 27 de maio de 2005

Dias

O despertador toca
e a noite se faz em dia
e com ele a promessa de mudança.

Levanto-me, vou ao banheiro,
escovo os dentes e arrumo o cabelo,
troco de roupa e preparo um café.

Saio de casa, tomo o ônibus,
vou ao colégio, começa a primeira aula,
e a promessa se distancia.

Bate o sinal,
o intervalo se inicia,
com ele o descanso e a promessa de alegria.

O sinal torna a bater
e nova aula toma forma,
apresenta conteúdo.

Pela última vez o sinal se faz presente no dia,
eis que surge novidade,
um protesto se aproxima!

De pequena importância,
afasta-se de novidade
e toma forma monótona como foram tantos outros.

Vou para casa,
tomo o ônibus e em seguida o metrô,
de tão cansado aceito humilde o lugar ao chão.

Penso no dia e nesse ponto
a promessa toma forma de um ponto
e se apaga.

Chego em casa,
ouço música,
termino os deveres trazidos do colégio.

O sol se põe
e a lua se faz presente
e o sono me incorpora.

Arrumo tudo conforme a disposição,
tomo um banho,
recolho-me.

O sono toma conta até que
novamente o despertador toca
e se engrandece novamente a promessa de mudança.

sábado, 21 de maio de 2005

O que se entende por sofrer?

Sofrer é entender que não sabe.
Sofrer é desatar-se da união.
Sofrer é viver morrendo.
Sofrer é estar certo do erro.
Sofrer é sol anoitecendo.
Sofrer é aceitar-se inferior.
Sofrer é menosprezar-se por prazer.
Sofrer é estar vivo!

Como é o não sofrer?

É saber que pode entender.
É unir-se ao que desapareceu.
É morrer de tanto viver.
É errar por estar certo.
É noite ensolarada.
É superar-se inconsciente.
É obrigar-se a melhorar.
É viver!

quinta-feira, 5 de maio de 2005

O tempo

No meu tempo havia mais vergonha.
No meu tempo havia mais respeito.
O meu tempo passou
e perdeu seu valor.
O que antes lutara para abolir,
hoje desejo que volte a existir.

Porque vi. Vi minha base ruir.
Vi o pensamento tornar-se senso.
Vi a luta se destruir e se auto-consumir.

Para tudo eu vivi, e senti.
Presenciei o ódio nos olhos dos oprimidos
e o medo, nos iludidos.
E então tudo mudou
e os inversos se inverteram.

Hoje receio nada ver,
receio uma ação que não tenha reação.
Receio uma partida sem despedida.

Mas um pensamento me acalma,
pode ser só mais uma etapa
da mudança silenciosa e rápida
que o tempo insiste em apressar
e não me deixa acalmar.

domingo, 1 de maio de 2005

Tudo o que fiz

Tudo isso eu fiz:

Engatinhei para poder andar,
usei colher para aprender a usar o garfo,
concluí o jardim para chegar ao CA.

Caí para voltar a andar,
abri os olhos para poder enxergar,
ouvi para poder falar,
dormi para poder acordar,
saí para poder chegar.

Fui para poder voltar,
fiquei sujo para poder me lavar,
deitei para poder me lavar,
li para poder escrever.

Sumi para então aparecer
e me contraí para poder me exprimir,
discuti para poder conversar.

De todas essas evoluções conclui que
nem todos passaram por elas,
outros as inventaram.

Mas alguns poucos avançaram,
mesmo tropeçando se projetaram
e caíram, mas caíram um passo a frente.
Levantaram-se e, felizes, continuaram a andar.
Porque tiveram de superar o desafio da dor
para aprender que naquele local tinha um obstáculo,
que por ser ignorado se fez presente.

E chamou a atenção para outros tantos obstáculos
que, desta vez, serão vistos e ultrapassados.

Assim evolui o sábio,
que dos conhecimentos mais inúteis
extrai a essência para avançar com mais atenção,
induzindo o acerto através do aviso do erro.