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sábado, 20 de janeiro de 2007

O teste do vento

- Você confia em mim? - Perguntou Sofia a Mésmero depois de notar sua expressão de dúvida.
- Venha aqui fora, quero mostrar-lhe algo.
Saíram para os fundos da casa onde o vento entortava as árvores e provocava nelas um som pouco convidativo.
     Depois de olhar um pouco para as árvores, sentir o vento nos cabelos e respirar calma e profundamente, Mésmero fitou Sofia como se para analisar se ela realmente ia entender o que ele estava para dizer.
- Então, o que queria me mostrar? – Perguntou Sofia visivelmente impaciente.
- Olhe para as árvores, veja a força com que o vento as empurra, mas sem chegar nem perto de quebrá-las ou arrancá-las. Perceba que elas dobram ao máximo sem prejudicar sua estrutura. Não subestime, contudo, a força do ar em movimento. – falou, observando se Sofia prestava atenção em suas palavras. Conforme constatou as feições confusas do rosto de Sofia decidiu continuar, tentando ir direto ao ponto com sua lição.
- Quisera eu que nossas palavras fossem tão fortes quanto as árvores que permanecem ao longo de gerações e gerações, vivas, mas quase da mesma forma, no mesmo lugar em que foram plantadas, mesmo que em circunstâncias diferentes, sem que o ar as quebre ou as tire de lá. Mas o que quer que falemos não resiste ou perdura por nada, mesmo uma fina brisa leva consigo o que quer que tenhamos dito, sejam promessas ou verdades, das mais absolutas. Esse é o alicerce que escolhemos para construir nossa sociedade e será o símbolo de nossa ruína. Nossas palavras não são fortes para resistir ao vento, por isso não posso afirmar com toda a sinceridade que confio em você, porque palavras, palavras voam ao vento.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Sonho

Friozinho bom que a noite trás
em meio a calafrios e mudanças de posição,
de fechar os olhos e admiração
é que o pensamento foge ao abrigo do coração.

Nesses bons momentos a escuridão se ignora
e imagens se colocando e trocando
um filme formam nessa hora
numa parada à perfeição de um doce momento.

Esse quadro que é pintado sem história,
em telas de realidade não vivida,
com tintas que não evaporam de sentimentos,
tomam forma os desejos abafados por atenção.

É agora, nesse instante,
que o amor permanece como constante.
Devido ao filme de romance sem bilheteria
visto por um, dividido por dois.

São esses os sonhos
que se ocupam em imaginar sua essência:
o amor e carinho dos que sonham
com seu alguém, de todos o especial.

A arte de ser: poeta

Não faço idéia do que seja ao certo um poeta.
Mas o imagino como uma pessoa que sonhe em poder dormir com a porta aberta,
Com a mata replantada
E com a fome enfim morta.

Acho que é o tipo de cara
Que não veste a educação manchada
Nem faz da mancha a violência
Ou a mantenha por quaisquer bons modos novos.

Deve ser aquele que ama perdidamente
Vários amores, nem que seja todos num só.
E os contorna e colore para que não os perca
Nos finos traços do grafite.

Pode ser que seja rebelde
Daqueles sem causa ou motivo.
Vivendo meio angustiado,
Descontente por isso ou aquilo.

Talvez meio solto,
Hippie de carteirinha
Sempre com o bermudão, camisa florida,
O cabelão e o caderninho no bolso.

Mas com certeza
Um alguém sem explicação
Incompreendido ou repleto de definições.
Humano.

Noite

A noite às vezes é fantástica
Por ela temos acesso à lua e às estrelas.
Temos o tão calmo silêncio
Ouvido e visto.

Ela vem sorrateira, devagar
E toma o dia emprestado para si.
Oferece o melhor ambiente
Para o descanso com seus sonhos irreais.

Mesmo os pobres de sono
Que se colocam a escrever com o gotejar seqüencial dos pingos de chuva noturnos
Não são desprovidos das surpresas sonhadas.
Pois sonhadores que são, mesmo alertas em exceção, ficam a sonhar acordados.

Somos o resultado do dia,
Confirmado ao amanhecer
No início dos desdobramentos da devolução do sol pela lua
Que nem sempre aparece, envergonhada de sua ação.

Humano que sou, apaixonado romântico
Fico aqui a desenhar letras ao longo de linhas perfeitas
Sem esperar, contudo que fique do agrado de alguém,
Mas que tenha sentimento e particularidade cada jogo de palavras rabiscado.

Que seja tal qual um amor, qualquer que seja,
Que tenha em si a humanidade rabiscada
O sentimento desenhado.
Mas que não se vá, como a noite.