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domingo, 15 de abril de 2007

Esperança

Se a esperança é a última que morre, com certeza é a primeira que adoece. Ela fabrica um tumor que tira de si quase todas as forças até que agoniza, em suspiros perdidos e fracos. Sem, no entanto morrer.

     Deixar de acreditar nas pessoas uma vez ou outra na vida é compreensível e até benéfico, pois nos mostra um pouco como de fato o mundo realmente funciona até que tenhamos alguma recaída e voltemos a nos decepcionar e aí espalhamos a todo mundo que nunca mais acreditaremos em ninguém e bla bla bla.
     Não é dessa esperança de que falo principalmente. Refiro-me àquela credibilidade que depositamos em nós mesmos e parece nunca desabar, mesmo nos piores momentos, se não cometermos suicídio, sempre acreditamos que no final tudo vai dar certo, seja por nós ou pela força que os mais chegados oferecem nessas crises existenciais.

     O perigo está quando essa esperança no eu se esvai. E é essa parte que estou vivendo atualmente. Seis dias por semana (quando não tem feriado) acordo cedo e é como se de nada valesse tal esforço. Perdi aquela vontade que só eu tinha. Mesmo com as decepções revivi projetos, mudei suas dinâmicas, coloquei mais gás no tanque e aí chega o ponto que parece não significar nada.
     Aos poucos estou perdendo contato com as pessoas que sempre gostei. Tenho consciência que a culpa disso é inteiramente minha, uma vez que eu também não estou correndo atrás, ao invés disso estou aqui escrevendo mais um texto bobo no pc.

     Mas desconfio que o que desencadeou isso tenha sido a nova ocupação que arrumei (meu pai arrumou pra mim...). Nunca achei que trabalhar num ponto de táxi fosse tão ruim. Vou listar um pouco do que já vivi naquele canto perdido na tijuca:
     A primeira semana foi uma das mais difíceis fisicamente falando. Tenho problema de coluna e de repente tive de ficar 7 horas ininterruptas de pé, o que provocava um imenso desconforto no final de cada dia, aos poucos isso foi sendo superado conforme o corpo foi se acostumando. Certo dia um garoto de rua foi chutado por uma pessoa que passava na calçada e não quis ajuda-lo com dinheiro, o menino revoltado perseguiu o agressor com uma pedra na mão. Num outro dia eu fui ameaçado com uma faca por um assaltante que não acreditou que eu não tinha dinheiro, acabei tendo de enfrentá-lo, só com palavras, mais por eu ser desligado do que por coragem em si e ele acabou indo embora (e no bolso tinha uns 15 reais que continuaram comigo).
     Na semana retrasada foi a vez de um gato preto morrer (vai ver que o azar que ele transmite voltou para ele mesmo) “atropelado”. Na verdade ele tentou atravessar a rua e bateu com a cabeça no pára-choque de um santana que estava passando, rodou com o impacto e ficou estrebuchando e pulando freneticamente até enfim morrer e ser levado pelo guardador de carro até a lixeira.
     As palmeiras mais nojentas estão ali, os taxistas mais nojentos estão ali, os guardas mais nojentos estão ali, os camelôs mais nojentos estão ali e até os canteiros mais nojentos (servem de casa para ratazanas durante o dia) também estão lá.
     Tirando tudo de ruim que o lugar por si só traz para quem quer que fique observando durante 7 horas ainda tem os caras que “pagam” meu salário. Afinal, como todo faz-tudo tenho que, inclusive, cobrar os caras e proibi-los de trabalhar caso algum deles não pague ao chegar no ponto. Fora que mais ou menos a cada 30 minutos eu levo uma bronca de algum deles (quisera eu que isso fosse exagero, desconfio que seja mais que isso) e adivinha quem são os que mais me cobram? Isso! São os mais errados! Não é legal?

     Bem, tirando a parte do trabalho em si essa experiência está sendo válida pelo fato de ficar na rua tempo suficiente para ver o que nela acontece de verdade e, retornando ao título do texto, não sei onde está a esperança. Pelo menos não a vi nos menores de rua que assaltam as crianças que vão para o colégio às 7:30 da manhã, muito menos nos trombadinhas alvejados pelos seguranças do shopping.
É difícil, e é essa a realidade dali daquele ponto na tijuca onde eu fico. Não encontrei esperança nos olhos daquelas pessoas, mas enquanto eu tiver algum pingo dela nos meus tentarei dividir com aquelas que, de fato, não sabem se terão algum amanhã.

Esse foi mais um desabafo do que um texto qualquer, não liguem para a falta de coesão/coerência ao longo do texto, acabou que cada parágrafo abordou alguma coisa distinta sem ligação com os demais. Acontece =P