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domingo, 31 de maio de 2009

Noite escura sem esperanças

Então estava lá correndo, em passos largos, num frenesi incontrolável. Tinha apenas dois pensamentos dentro de si: continuar correndo e não olhar para trás. Era ainda uma noite fria, chuvosa, onde o tempo estava meio estacionado entre algumas horas da madrugada. Estava com medo, medo de que a aurora nunca chegaria, medo de perder o restante da força que ainda o impulsionava para longe de um destino que afugentava qualquer resquício de esperança que ainda pudesse restar e, sem esperança, sua existência já não mais teria sentido, transformar-se-ia em um boneco sem vida, sem utilidade.

     Já não sabia mais como seu corpo ainda o sustentava, de onde vinha tanta vontade, não sentia as pernas, ou os braços, ou sua estrutura, tinha noção de sua existência apenas pelo latejar intermitente em sua testa. Ao menos a chuva tinha parado, recebia agora algum conforto, o exercício finalmente trouxe algum calor para seus membros encharcados e um esboço de sorriso ameaçou saltar por entre seus lábios.

     Cometeu um erro: olhou para trás. O pavor que sua visão produziu aliado à falta de atenção no caminho o fez cair na lama com uma força sem igual. Não conseguiu se levantar, tão pouco teve a coragem de encarar seu medo como última opção. Deixou a cabeça mergulhada na lama, a mente distante de interpretar qualquer coisa, mesmo a simples necessidade de respirar foi ignorada. Tinha se dado por vencido, seu maior temor foi atendido e sua esperança se esvaía, como água por entre os dedos. Havia reconhecido: era seu fim.

     Sentiu seu destino virando-o para encará-lo, obrigando-o a abrir os olhos e quando o fez acordou. Sim, acordou de seu pesadelo estranho, de sua corrida pelas trevas. Já era dia e o sol queimara de leve suas pupilas desavisadas, aos poucos recuperou a calma até que suas mãos pararam de tremer. Estava exausto, ainda assim levantou e voltou para sua rotina diária. Quanto ao pesadelo? Está lá, um pouco escondido em seu inconsciente, aguardando o próximo momento de crise, de falta de esperança, para atormentá-lo novamente.



O texto é aleatório, não tem nada em comum com a minha realidade agora, foi feito para que eu pudesse testar uma narrativa apenas.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um mês

Pouco tempo medido,
Corrido naturalmente
Que a física já mostrou ser relativo.
Lateja síncrono, nunca dormente.

Realidade vivida
Como união de momentos
Que segue corrida,
Sem sequer cogitar tormentos.

Situações agradáveis
Ocorrendo sem cobranças,
Trazendo certezas amigáveis
E aconchegantes lembranças.

Contatos de expressões lindas
Com surpresa, recebidas.
Sendo de todas bem-vindas.
Para sempre em meu coração, mantidas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Caminhada

Acordei certa vez em um desses dias que vale a pena viver e caminhei, assim mesmo, sem rumo certo, só pela curiosidade do que viria. No início andei descompromissado, mas vacilante com as novidades, não se podia apressar o que estava por vir, transformando a atividade em uma experiência que transbordava ansiedade. Foi com tropeços que marquei esse início, meio desajeitado, eufórico até, em aprender mais, ver mais, sentir mais.

Então os passos se tornaram muito repetitivos, com aquela aparência de tempo estático, quase como uma calmaria sem novidades. Nessa parte cometi o erro de estabelecer uma base segura, um momento onde o chão era perfeitamente regular e nem brisa ou tempestade podia surpreender. Era como caminhar acompanhado de memórias tranquilas que eram sempre fiéis à realidade e à falta de horizonte desigual. Mas peço que não se engane, pois essa passagem, ainda que boa, serviu para me acostumar à falta de mudanças, para me acomodar com uma passada firme, um chão seguro, uma respiração estável, um ambiente controlável.

Uma falta de atenção e o piso se abriu em uma cratera, não, cratera é exagero, um buraco que foi suficiente apenas para um leve tropeço, um pequeno desequilíbrio facilmente contornável se não fosse o comodismo anterior. Um passo em falso que deu a impressão de uma queda sem volta em um precipício desesperador que assumiu uma proporção imensa. Fora um aviso antes de qualquer coisa, afinal mudanças são normais (ou deveriam ser) e assim passaram a ser, todas com saldo positivo que fora omitido pela simples insegurança da falta do previsível.

Desse momento em diante a caminhada tornou-se novamente interessante, com objetivo e novos desequilíbrios frequentes. Não tem sido aconchegante, é como andar em cascalho com os pés descalços: mesmo avançando a dor acompanha. E esse novo percurso tem a aparência mais justa. Sim, é um dos caminhos mais difíceis que já tracei, mas os momentos que passam por mim acenam com tom de conhecimento, e conhecimento em todas as formas, mais maduro, diferente daquele adquirido por experiência própria no início. Tem sido difícil, são caminhos tortuosos onde o desespero e a vontade de largar tudo e correr de volta para a segurança sempre marcam presença nos piores trechos. Mas ao mesmo tempo está com cara de que o que virá após esse longo horizonte sem fim será muito melhor do que qualquer outro momento.

Em meio a esse caminho atual repleto de dúvidas me apareceu uma surpresa, próxima a um riacho que servira de descanso a andarilhos. Nesse lugar bebi, descansei e recuperei o fôlego e pouco antes de seguir caminho ressurgiu uma companheira que tomava um caminho diferente, mas fez questão de coincidir seus passos com os meus. Desde então tudo tem se tornado mais alegre e a vontade de largar tudo tem dado espaço a de realizar. É como se a caminhada tivesse parado e começado novamente, pelo mesmo caminho, mas com um ponto de vista diferente.

Cada dia representa um novo passo.