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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Caminhada

Acordei certa vez em um desses dias que vale a pena viver e caminhei, assim mesmo, sem rumo certo, só pela curiosidade do que viria. No início andei descompromissado, mas vacilante com as novidades, não se podia apressar o que estava por vir, transformando a atividade em uma experiência que transbordava ansiedade. Foi com tropeços que marquei esse início, meio desajeitado, eufórico até, em aprender mais, ver mais, sentir mais.

Então os passos se tornaram muito repetitivos, com aquela aparência de tempo estático, quase como uma calmaria sem novidades. Nessa parte cometi o erro de estabelecer uma base segura, um momento onde o chão era perfeitamente regular e nem brisa ou tempestade podia surpreender. Era como caminhar acompanhado de memórias tranquilas que eram sempre fiéis à realidade e à falta de horizonte desigual. Mas peço que não se engane, pois essa passagem, ainda que boa, serviu para me acostumar à falta de mudanças, para me acomodar com uma passada firme, um chão seguro, uma respiração estável, um ambiente controlável.

Uma falta de atenção e o piso se abriu em uma cratera, não, cratera é exagero, um buraco que foi suficiente apenas para um leve tropeço, um pequeno desequilíbrio facilmente contornável se não fosse o comodismo anterior. Um passo em falso que deu a impressão de uma queda sem volta em um precipício desesperador que assumiu uma proporção imensa. Fora um aviso antes de qualquer coisa, afinal mudanças são normais (ou deveriam ser) e assim passaram a ser, todas com saldo positivo que fora omitido pela simples insegurança da falta do previsível.

Desse momento em diante a caminhada tornou-se novamente interessante, com objetivo e novos desequilíbrios frequentes. Não tem sido aconchegante, é como andar em cascalho com os pés descalços: mesmo avançando a dor acompanha. E esse novo percurso tem a aparência mais justa. Sim, é um dos caminhos mais difíceis que já tracei, mas os momentos que passam por mim acenam com tom de conhecimento, e conhecimento em todas as formas, mais maduro, diferente daquele adquirido por experiência própria no início. Tem sido difícil, são caminhos tortuosos onde o desespero e a vontade de largar tudo e correr de volta para a segurança sempre marcam presença nos piores trechos. Mas ao mesmo tempo está com cara de que o que virá após esse longo horizonte sem fim será muito melhor do que qualquer outro momento.

Em meio a esse caminho atual repleto de dúvidas me apareceu uma surpresa, próxima a um riacho que servira de descanso a andarilhos. Nesse lugar bebi, descansei e recuperei o fôlego e pouco antes de seguir caminho ressurgiu uma companheira que tomava um caminho diferente, mas fez questão de coincidir seus passos com os meus. Desde então tudo tem se tornado mais alegre e a vontade de largar tudo tem dado espaço a de realizar. É como se a caminhada tivesse parado e começado novamente, pelo mesmo caminho, mas com um ponto de vista diferente.

Cada dia representa um novo passo.

2 comentários:

  1. "Cada dia representa um novo passo."

    Achu q era a melhor coisa q eu poderia ouvir agora, rs.

    Adorei o texto.

    bjo, bjo, bjo...

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  2. Lindo texto, parabéns!

    Perder para ganhar, eis uma das lógicas da vida. Ainda que se perca o que mais tarde se vai ganhar novamente..e acabou-se a lógica. Entendeu? rs

    Gostei do texto, de verdade!
    Caminhe passos novos a cada dia e seja muito feliz!

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