Páginas

sábado, 17 de outubro de 2009

Rio, 17.10.2009

Voltando pra casa, 12h24min, dirigindo, saída da linha amarela, sinal fechado:
Blazer branca pára atrás, buzinando enlouquecidamente e forçando passagem:
Natalia: "o que é isso?"
Eu, olhando no retrovisor, já no meio do caminho pra começar a xingar: "Sei lá, vou dar passagem, tá muito desesperado pra ser só alguém que eu tenha fechado sem ver."
A blazer emparelha, olhamos pro lado, homens fortemente armados dentro.
Natalia: "Ai meu Deus, vamos embora, mas não vai atrás dela não!"
Eu: "ela tá indo pra onde a gente mora, quer que eu vá por onde? No máximo vou dar tempo deles irem um pouco, mas terei que seguir o mesmo caminho"
Natalia: "Tem certeza?"
Eu: "Ué, vamos ver o que tá acontecendo primeiro, se tiver ruim mesmo tento um outro caminho, de qualquer forma vou por dentro do bairro."

Voltando pra casa, 12h32min, dirigindo, táxi emparelha em sentido oposto:
Taxista: "Que que tá havendo pra lá?"
Eu: "Nem sei, não to vindo de lá não, entrei pelo bairro quando vi a fumaça, mas parece que está tendo tiroteio e pela fumaça devem estar queimando um ônibus, se for por aquele lado, vai pelo Méier, na rua 24 de maio deve estar melhor"
Taxista: "Tudo bem, mas vou arriscar"
Eu: "ok, boa sorte!"
Taxista: "Pra você também"

Na entrada do meu prédio, 12h41min, eu entrando, vizinha saindo:
Eu: "Olha, cuidado quando a senhora sair, tenta evitar essas ruas principais que aparentemente estão queimando ônibus nelas, se puder fica mais tempo em casa."
Ela: "Sério?! Bom, eu tenho que sair, mas antes vou avisar meu marido e meu filho. Obrigada, tchau"
Eu: "Tchau"

Meu único medo é que esses tipos de diálogos se tornem frequentes. Porque, se se tornarem, realmente não sei o que esperar da cidade.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Um quarto escuro,

Vazio.

Um ser agachado em um canto.

Mãos no rosto,

Lágrimas.

Choro de desabafo

Já sem nada estar abafado.

Calma interior,

Desespero exterior.

Braços cruzados,

Visão embaçada,

Inútil.

Nada a frente

Objeto nem luz.

O quarto aumenta.

Mais vazio, mais parede.

Sozinho, sem solidão.

O espaço aumenta mais.

De fora parece ser preocupante.

Esgota-se umas sensações.

Choro.

Retorno ao que é seguro.

Mãos no rosto,

Olhos fechados.


“O interessante da imaginação é poder usá-la quando se enjoa da vida real.”

domingo, 4 de outubro de 2009

Colcha de Retalhos

A dor é penetrante,

Como agulha a costurar retalhos

E como costura

A marcar fronteiras de cicatrizes.


Corpo, mente e alma retalhados

A sustentarem coração, desapegado,

Com finos fios de nós, laços

Mal dados.


Mil pontos fracos unidos

A formar um estranho ser

Disforme.

Ilusão nivelada por baixo.


Estranheza em afastar reconhecida,

Preferência em solidão, enfim.

Angústia moída e remoída

Torna a mais vil dor, frenesi.