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domingo, 28 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O pior

é ter que continuar vivendo.

Já estive

na pele de todos os personagens de friends.
Interessante, não?

Obra

A escavadeira entra no terreno atrapalhando a todos,
Vira, mexe e remexe terra com entulho.
Com detritos.
Após muito mexer entram pessoas engraçadas
Com capacetes e linhas a marcar
Onde o ferro deve ficar e o concreto jorrar.
Então que caia a mistura acinzentada,
Vai virar pedra, fundação.
Que venham mais armações de ferro
Para que se forme o esqueleto.
Agora é a vez dos tijolos
Encaixando uns nos outros como lego.
Paredes que se formam sangrando
Um barro vermelho cozido.
Enfim uma cobertura,
Uma pele que esconda tudo.
É a vez das pessoas
Com sua organização engraçada,
Suas brigas, traições e mediocridade.

Por fim, restam apenas escombros.
Por fim mesmo, apenas terra,
Pedras, barro, areia.
Restos. Matéria orgânica.
Decomposição.

Bicicleta

Abre cadeado.
Fecha cadeado.
Abre a porta de mola.
Cuidado pro camelo não tombar.
Pedala, abre o portão.
Pedala, chega no trânsito.
Carona com o caminhão.
Alta velocidade.
Guidão treme.
Finge que vai desmontar.
Ou quebrar.
Fechada de ônibus.
Putas na esquina.
Galerinha do crack.
Olhares mal-encarados.
Fechada de ônibus.
Meia-volta.
Putas e crack de novo.
Pedalada forte.
Tentativa de fugir.
De mim mesmo.
Devaneio.
Batida na pick-up.
Queda.
Levanta, pedala de novo.
Celular toca.
Pedala com uma mão.
Pedala sem as mãos.
Fica em pé em cima.
Vontade de cair não atendida.
Tá bom por hoje.
Pedala pra casa.
Abre cadeado.
Fecha cadeado.
Água.
Vida normal novamente.



Sem a bicicleta realmente não posso viver.

De bicicleta

a esquina do medo é ainda mais alucinante.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Esquina do medo

A esquina do medo é em todo lugar.
É na cidade corrompida.
É nas pessoas compradas.
É nas que se deixam comprar.
É nas que se enganam ao participar.
É nas atrocidades do cotidiano.

Em todos e por todo o dia.
É difícil.
Quais os motivos de tal insanidade?
Talvez por ser insanidade não existam motivos.
Ela existe por si só.
Mas só por isso já é confuso.

(E) enquanto gritamos que somos racionais.
Batemos no peito, exatamente como o gorila faz.
Sim, poeta, gorilas não escrevem poemas.
Nem compensam valores falsos em cima da razão.
O que deixa a pergunta: quem é mais animal, então?

E são nessas (pequenas) ações.
Ditas, por alguns, não serem passíveis de arrependimento.
Que tudo ao redor vai apodrecendo.
Unem-se a elas todo o tipo de corrupção.
Seja pensada, falada ou feita.

Em tudo que minha razão permitir.
Não me deixarei ser corrompido.
Não permitirei que meu facho de luz se apague.
Não deixarei a esquina do medo estar ao meu redor.
Não deixarei em minha casa.
Não deixarei em mim.

Não serei eu, tampouco, representante de tal escória.




Não se engane, poema baseado no que você pensou que ele foi baseado.
E, também, nessa reportagem.

No dia seguinte

a chuva escorre por entre telhados, paredes e pisos, cacos em sua maioria. Confunde-se com o calor das trevas, mistura-se com o suor insuportável da semi-claridade do fim de noite.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Às vezes acordar

é pior do que continuar dormindo. Mesmo nesse calor nojento. É melhor continuar a dormir, correndo o risco de se afogar na poça de suor formada ao longo da noite.
Por que tem que ser tão ruim acordar nos dias em que acordar é ruim? Por que tão ruim? Se fosse só ruim não teria problema, mas da forma que é sempre complica mais.
Viver a vida numa boa nunca foi fácil pra mim.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Carro

Calor.
Porta aberta.
Espera do lado de fora.
Ar-condicionado que não faz efeito.
Trânsito.
Compressor desarma.
Desliga o ar.
Abre as janelas.
Motor rateia.
Morre.
Demora a ligar.
Religa.
Mais trânsito.
Agonia.
Mais calor.
Trânsito anda.
Religa o ar.
Ar faz pouco efeito.
Cor amarela.
Pessoas fazem sinal.
Confusão com táxi.
Trouxas.
Motor vacila, por causa do ar.
Motor vacila sozinho.
Troca as velas.
Continua no escuro.
Acelerador quebra.
Gatilho oportuno, mas porco.
Acelerador muito alto.
Dor no pé.
Morre de novo.
Religa no tranco.
Paciência se esvai.
O da frente com excesso de lerdeza.
Ultrapassagem perigosa.
Motor vacila no meio.
Excesso de velocidade.
Volante tremendo.
Pé no freio.
Seta armada.
Paralelepípedos.
Barulho de moeda no cinzeiro.
Fechada em alguém.
Estaciona.
Encostada no fox branco.
Carona.
Túnel meio livre.
Meio cheio.
Rádio bem alto.
Excesso de velocidade.
E de ultrapassagens.
Chegada.
Estaciona.
Porta de casa.
Dias seguintes.
Barulho agudo.
Borracha queimada.
Marcas no chão.
Quase atropela o gari.
Tem que dar um jeito no motor.
E no ar.
E em mim.

Tetris

Tome uma biblioteca. Uma grande, com milhares de títulos. Tome um bloco de construção. Um pequeno, com um título próprio. Um livro, como bloco, é demasiadamente completo. Ainda que pequeno e com um título próprio é grande demais para essa proposta. Tome, portanto, sua composição: as palavras. Estas sim atendem melhor as qualidades de bloco de construção: são pequenas, com um único nome (a palavra em si).
Nesse ponto, convido a minuciar ainda mais, desmembrar palavras em letras, que são ainda menores, que também possuem títulos próprios (títulos esses que, ironicamente, precisam de outras letras para serem formados).
E são, finalmente, as letras, 26 para ser exato (pensando no alfabeto usado para formar a língua portuguesa) que juntas ao formar palavras e então livros, unidos formando uma biblioteca, imitam a beleza (intangível à inteligência humana) da vida e toda matéria que a rodeia. Veja, o alfabeto em ordem, confunde-se com uma tabela periódica. Cada átomo, como cada letra, formam moléculas distintas, como palavras, que unidas e arranjadas de maneira distinta formam tudo o que há separadamente, como livros, para ainda constituir todo um universo, como uma biblioteca.
A arte de unir letras especificamente a formar uma linguagem que transmita uma idéia, única, assemelha-se àquela criança de 5, 6 anos jogando tetris, zerando e batendo novos recordes. Nunca iguais.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Trilha à frente

E caminhamos amor, caminhamos.
Pernas e pés como tacos de golfe sem jeito.
Mãos dadas como para acrescentar mais peso
a corpos frágeis, sofridos e cansados.
Não fomos feitos para carregar peso, eu sei.
A falta de equilíbrio sempre me lembra disso.
Mas apoiamos amor, um no outro.
Nessa trilha difícil, onde mesmo o descanso
é dolorido, é penoso. Sem sentido.
Mas cá estamos amor, sem entender
como podemos seguir em frente, sem conhecer.
Como será até o alvo, se mais agressivo
ou mais calmo. Mas pegadas novas
continuam sendo formadas.
E estão frescas e são feitas
de duas em duas amor,
porque aqui vamos nós. Juntos
caminhamos amor, caminhamos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Escrever sempre foi chato

Desde sempre, no aprender das letras,
No não entender dos textos.
De certa forma, na maioria das vezes,
Escrever é mais chato para aquele que lê.
Porque a escrita é a tentativa (conseguida)
Da perpetuação da mentira, da hipocrisia, da afirmação duvidosa (e estranha).
Escrever é como encabrestar a palavra dita,
Velha conhecida por não ter valor ao vento,
E dibicá-la à própria vontade, ainda que contra a brisa.
É tirar (sim, tirar) o sentimento do espontâneo
Deixando escoar pelas fibras da verdade.

E por isso ler me dilacera e escrever me fragiliza.
Dilacera pois ao passar os olhos setas me atravessam,
Elas poderiam escolher outros caminhos para apontar as coisas,
Mas escolhem aqueles que perfuram o peito.
Fragiliza porque é desabafo
As palavras vêm como vômito guardado
Queima o estômago, garganta e boca.

Mas, como humano que sou, estúpido.
Encontro na falsidade um buraco
(Agradeço por ainda ser pequeno)
Onde me agacho e me protejo
Como tantos outros, tantos "poetas"
A assinar a falta de coerência dos meus pensamentos.
É, só sobraram reticências.
...

=/

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A felicidade vem em gotas

Escassas desde sempre,
Alguém sempre deixa o registro aberto
Quando há vazamentos.

Mas ela acaba...
Algum momento,
Um vazamento maior se rompe um pouco antes e

Seca.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Entre caminhadas e pedaladas

Por entre caminhadas e pedaladas
Onde metros se unem a formar quilômetros
Espaços novos são descobertos
À medida que o tempo dita o ritmo.

Ah! Os novos cenários
Tão cheios de vida e de cores
E de todo um mundo inesperado a passar
Por entre o canto dos olhos, quase imperceptível.

Passo a frente de passo
Pedras, barro, capim, gado e mato
E vista a ficarem estáticos,
Para trás.

Cansaço úmido de suor
A bambear as pernas
E excluir todas as sensações
Com exceção de uma a manter o coração.