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sábado, 17 de abril de 2010

Do não caber

     A noite fora desastrosa, marcas de pés na parede denunciam a semi-realidade do pesadelo vivido, afinal ele fora embora e agora ela fita as marcas deixadas por ele: algumas camisas esquecidas no armário ainda com seu cheiro impregnado nas fibras, o copo sujo de café da última briga deixado na pia, o fio de cabelo desleixado no canto da cama. Em todo lugar existe algo marcado, como riscos em sua memória sensíveis aos tatos, físicos e imaginários.
     Enquanto a madrugada avança vagarosa ela observa os contornos que seus pés agitados deixaram. Pegadas de um caminho impossível de se tomar. Tentativa desesperada de fuga parede, teto a dentro. O carinho de outrora traz uma certa ânsia cadenciada com o ponteiro dos segundos. O tempo não passa e a ausência sufoca. Em meio à prisão encolhedora ela se pergunta se afinal sentiu algum calor acolhedor alguma vez.
     Ela se levanta ainda sem o apoio da aurora e caminha se escondendo pela penumbra, como o fantasma que a assombra em sonho. Suas pernas tremem e então se senta à mesa. Finalmente desaba chorando sua dor ao visualizar entre lágrimas e soluços a bituca do cigarro tragado após o último sexo. Em completo desespero ela se agarra àquele resquício de tabaco, afinal ainda resta a saliva dele no filtro. Ela quer respirá-lo, mais que fumaça quer tê-lo dentro de si a contaminar seus pulmões. Mas é só fumaça, só o gosto amargo. Sua saliva, boca ou ele não está ali.
     Finalmente ela se convence: está só. A assombrar seus passos e rotina. "Serão todas as madrugadas dessa forma?" ela se pergunta, mesmo sabendo a resposta.
     O despertador toca, está na hora. Hora de ser a assombração de outros.

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