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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

De meus verões, soneto duplo

Hades observou do submundo
sua futura rainha e a raptou.
Perséfone, filha de Deméter, não teve escolha
e fez dos mortos seus súditos.

Mas um acordo a consolou,
atestado, confirmado, decretado.
Três meses por ano ela voltaria
e então Deméter a primavera faria.

A alegria ainda duraria todo um verão,
a vida dos deuses é mesmo familiar.
Meu verão não é de alegria,

foi o tempo dessa Perséfone
ir aos confins do submundo
fazer dos mortos sua companhia.

O inverno semi-perpétuo de Deméter
é meu verão, é meu outono.
É a metade do ano que morre
e vaga pelos pátios do Tártaro.

A mitologia é mais real
que muito signo e todo o zodíaco.
É presente nesse sol escaldante
que torra minha alma de olhos fechados.

E a brevidade da vida
quer dar cambalhota:
nas lembranças se repete.

Às vezes, insano, como eu queria ser um deus,
mas a fantasia disso que chamo de vida
transforma tudo em vã mitologia ... real.

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